Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres.
Aos 4 anos, ao ficar em casa sozinha com o padrasto da sua mãe, ele aproveita do momento para abusá-la, ele se aproxima e enfia sua mão debaixo do seu vestido, desce sua calcinha e acaricia sua genitália, ela por sua vez, não sabe o que está acontecendo e chora, ele a faz parar de chorar e finge que nada aconteceu quando os moradores da casa retornam. Das outras vezes, ele a deitava na cama alisava seu corpo, apertava seus seios, como se ela fosse uma mulher feita, a penetrava com os dedos e por fim a chupava de forma tão nojenta, enquanto ela chorava, como entender o que estava acontecendo, logo ela que era tão nova, pura e inocente, não sabia como contar a família o que estava acontecendo, nunca foi ensinada que não devia deixar ninguém tocar no seu corpo, e quando tocaram durante 4 anos, ela não soube o que fazer, então se calou. Sua mãe não percebeu em momento algum sua mudança brusca, deixou de ser um criança contente, conversadeira, passou a se isolar, a cada semana era um livro diferente, pois via na leitura um escape, não queria mais ficar sozinha com aquele homem em casa, inventava desculpas, pedia pra ficar na casa da vizinha, e tudo por medo. Aos 6 anos, outro susto, estava com febre em casa dormindo, enquanto sua mãe sai rapidamente para comprar os medicamentos e ao voltar, sua mãe encontra o filho do seu padrasto entrando no seu quarto, enquanto a menina dorme, teve escândalo até expulsarem ele de casa.
Cresceu, aos 15 anos, finalmente compreendeu que tinha sido abusada, violentada, só não conseguia compreender como ela atraíra o desejo sexual de um homem tão mais velho do que ela, logo quando ela só brincava com suas bonecas, teve sua infância roubada e não sabia como falar com alguém sobre a situação. E com medo dos perigos do mundo, passou a estudar o assunto e mesmo que não entendia o significado do feminismo, se identificava.
Ela tinha tanto medo de ser estuprada novamente, que por azar, foi exatamente isso o que aconteceu. Ele, 24 anos, filho da amiga da sua mãe, rapaz da mesma igreja. Ela, 16 anos, virgem. Em um dia em que ela vai visitar a mãe do rapaz em questão, por maldade da mãe dele ou não, os deixa sozinhos, ele tampa sua boca a arrasta para o quarto, tranca a porta, as janelas e de forma agressiva, tira seu shorts, a joga na cama e a penetra diversas vezes, ela chora, se debate, implora para ele a largar, a única resposta obtida foi "calma, só saio daqui quando terminar", e ao finalizar ele a xinga e a expulsa da casa. Ela vai embora se sentindo culpada, perdida e ao chegar em casa, toma um banho como que para limpar sua alma, se sente tão impura, tão vulnerável, tão tão suja. Ele por diversas vezes a perseguia, aumentando cada vez mais o medo, quando finalmente ia contar a sua mãe do estupro, ele quase a atropelou por 2 vezes na porta da sua casa, então se calou.
Por diversos motivos mudou de cidade, e conheceu mulheres que passaram por situações parecidas com a sua e aprendeu a enfrentar seus medos, a militar como feminista e descobriu que independente da sua roupa, da sua maquiagem, ela era vítima, não culpada. Comprou briga no colégio, com um garoto, quando esse passou a mão em sua coxa, arrumou outra briga na rua, quando ao ir pro ponto de ônibus, dois homens tentaram alisá-la, e por mais que na hora ela xingasse e tentasse se defender, ao chegar em casa, chorava por não suportar essas situações. Desistiu de relacionamentos, era doloroso demais, a cada toque, ela se recordava dos abusos, até que apareceu uma pessoa que a ajudou a superar parte dos traumas, que era seu ombro ao chorar, que a acolhia depois de pesadelos.
Depois de tanto trauma, tantos homens sem escrúpulos na sua vida, ela achou que estivesse segura namorando uma garota, mas foi um engano, assim como eles, ela teve coragem de fazer o mesmo, certa noite ao negar uma transa, sua namorada a pegou a força e a penetrou, dizer NÃO, já não adiantava, pedir para parar, ela não ouvia, se debater, não dava, o espaço era pequeno e a garota era mais forte e estava por cima dela, ao terminar, elas discutiram, foi estupro, a outra não aceitava, já que estavam em um relacionamento para ela era normal, tempos depois, elas terminaram, ela não conseguia namorar a garota que a tinha violentado, depois de tudo.
Voltou pra sua cidade, disposta a lutar e enfrentar essa sociedade machista que acha tão natural a cada 11 minutos 1 mulher ser estuprada. Foi a um evento sobre o feminismo em um colégio e não acreditou como conseguiu dizer entre uma lágrima e outra tudo o que já tinha acontecido na sua vida e isso tudo com apenas 17 anos. Feminista ? Mais do que nunca, pois a cada companheira que é morta, estuprada, jogadas nos becos, é uma dor a mais em sua vida, pois sabe que são situações em que as autoridades não fazem o mínimo para ajudar, pois são mulheres e como sempre, elas são culpadas pelo fim que lhes foi dado.
Ela tem cicatrizes, feridas que não estão cicatrizadas, não totalmente, mas isso serve como incentivo, para nunca desistir da luta, pois há tantas companheiras que precisam de exemplos e de ajuda de pessoas como ela, para se reerguerem.
"Seguiremos e marcha até que todas sejamos livres".
Escritor anônimo

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