Me perdoe o incomodo, mas preciso falar dela.

Parei para sonhar e percebi que não sinto falta da época que nós nos conhecemos. Você era agressiva, auto-afirmativa, chata, mandona, ríspida e tudo o que eu odeio em um ser humano. A pessoa com que você se relacionava na época passava maus bocados publicamente graças ao seu temperamento explosivo, xingamentos e até bordoadas totalmente descabidas e gratuitas. 

Dentre todas as pessoas que já haviam passado na minha vida, por certo que você era de longe a que eu nunca quereria. Azar o meu de gritar ao universo o tal do "nunca". O tempo passou e você ficou mais amigável, tão doce quanto a brisa da primavera em um campo florido, tão mansa  que eu cheguei a duvidar se realmente era a pessoa que eu tinha conhecido ou mesmo se o conceito que tive a seu respeito nesses primeiros momentos eram enganosos. Tentei me redimir da melhor forma. 

Marcamos e saímos algumas vezes, conversamos sobre gostos musicais, paramos para assistir filmes e eu me vi completamente apegado a sua presença. Por intermédio do destino, decidi que passaria mais dias perto de você e, aparentemente você decidiu o mesmo. 
Passamos mais tempos juntos do que eu jamais imaginaria, dividimos a intimidade, os sonhos, os planos, eu cozinhava para você poder comer e, você por sua vez, tirava o pó dos moveis enquanto eu varria a casa. Isso nunca me incomodou, até gostava da ideia de brincarmos de casinha, no entanto, um dia você teve que viajar. Não posso dizer que fui pego de surpresa, uma vez que antes, você havia me perguntado qual a minha opinião a respeito de você passar um final de semana fora e, eu dizer que não gostava da ideia, mas que respeitaria caso fosse a sua decisão. 

Saber que você estava viajando, tudo bem, mas quando recebi a mensagem que você me mandou, dizendo que não estaria presente no dia do meu aniversário me magoou um tanto. Mais até do que as nossas brigas diárias que sempre resultavam em uma batida de porta, meia duzia de gritos e 4 horas seguidas de caras feias. Então, na madrugada, entrei na rede social, abri a sua caixa de mensagem e escrevi por meia hora sem parar, abri meu peito, expus minhas dores, meus sentimentos, meus medos, minhas vontades e depois como bom covarde que sou apaguei tudo. Reescrevi apenas que achava que você estaria presente e que a sua presença era muito importante pra mim naquele momento. 

Você enfim apareceu a tempo e retornamos a nossa rotina, dizem que a rotina cansa, mas o que cansava realmente era ter que medir as palavras pra poder conversar com você. Isso mesmo, você havia se tornado novamente aquele ser tenebroso que eu achava apenas que era fonte da minha imaginação. Foram 3 as vezes que você disse que não poderíamos mais ficar juntos, você me mandou ir embora 5 vezes, você fechava a cara pra mim, por coisas que eu tinha feito e por coisas que eu não tinha feito, ficou altamente emocional, sombria e agressiva.

As feridas emocionais da minha vida já estavam abertas e, você por sua vez, sabendo ou não resolveu dar umas cutucadas algumas vezes repetidamente e eu, particularmente não sabia bem o que fazer. Já estava com o pensamento todo contido em você, cada ação era voltada para o seu bem estar, no entanto nada que eu fazia estava bom. Não conversávamos mais sem antes brigar. Nem mesmo a criança de 4 anos que havia no nosso cotidiano tinha mais birra que você quando o assunto era eu.
E eu iria explodir mais cedo ou mais tarde, isso era certo.

Então, pra não te culpar de algo que você era atuante mas não era criadora. Assumi a responsabilidade e criei uma realidade em minha mente, que a curto prazo poderia me matar, me magoar, me machucar mais do que eu  merecia, mesmo assim eu criei a realidade do ser apaixonado, um louco, pirado. Aquele que sente as borboletas no estomago e frio na barriga quando você estava prestes a chegar, que se tremia de felicidade quando tinha que conversar ou mesmo que olhar pra você, que se sentia contemplado com a vontade que tinha de te aquecer abraçando durante as noites para que você ficasse bem quente antes de dormir, o cara que queria passar mais tempo contigo, acordar contigo, dormir contigo, conversar novamente, ser mais amável que o Chico Buarque, discutir Caetanos, ouvir Nero, mas, nada disso funcionou. 

Você chegou a comentar que iria começar a odiar Nero, pela minha repetição "fanática" por ele. Então, o nosso fim chegou antes mesmo das cortinas abaixarem. Mais gritos, mais shows, mais olhadas que diziam mais agressividade que as próprias palavras, mais grosserias, mais birra, mais desculpas pelas coisas que tinham feito e mais promessas de melhoras de algo que sabíamos que sempre voltaria a acontecer. Na ultima vez que nos vimos, meu coração estava em festa e em fúria, você havia me machucado, no entanto eu estava ali, pertinho de você, mas, quando eu anunciei a minha partida, você se envermelhou todinha, usou um tom ameaçador pra falar comigo e tentou bater a porta do quarto. (como sempre fez).

Eu ainda sinto falta de compartilhar contigo as minhas vitórias e derrotas, não posso negar, são mais derrotas do que vitórias, mas, você tinha um belo par de ouvidos e um sorriso maravilhoso, sinto falta de acordar no meio da noite por que você sonambula estava me dizendo alguma coisa que acordada jamais diria.
Sinto falta da sua preocupação excessiva. Até mesmo das pré-discussões quando eu dizia que iria tomar um remédio, mesmo não sentindo nada. Sinto falta da companhia e da rotina que nos cansava. Das tardes deitados na cama, das manhãs jogados no sofá. Das madrugadas em que você me deixava sozinho assistindo um filme que você tanto queria assistir.

Queria saber se ainda dorme com a minha coberta por cima de todas por que ela é fria, se sente ciúmes quando alguém ousa encostar nela, se ainda fica, como a gente ficava, ao pé da janela olhando pro céu a noite. Queria saber se tem se alimentado bem, se tem dobrado as cobertas antes de sair pela manhã. Queria saber se a arrumação da casa esta ao seu agrado, se estão tirando o pó das coisas, lavando os pratos regularmente, como combinamos. Se as visitas noturnas ainda acontecem sempre na mesma base de horários. Queria saber coisas que apenas nós que morávamos ai, sabiam.

Sinto tua falta mesmo, não é saudade, é a falta, sinto falta de te ver levantar a noite pra ir ao banheiro apenas com camisa e calcinha, correndo para eu não perceber que você esta descalça e brigar contigo, sinto falta de atrapalhar a sua leitura me esparramando em cima de você ou do livro em questão. Sinto falta de te fazer um convite indecente quando tem alguém presente, só pra te fazer ficar envermelhada, sinto falta do teu cafuné, que sempre arranhava minha cabeça por você não saber a força que usar ou a potência das suas unhas que você diz "nunca estar grande"e as vezes era incomodo. Sinto falta do seu cheiro, do seu toque, da sua companhia. Das brigas não. Essas, eu não sinto a menor falta, gostaria que fossem todas para as putas que lhes pariu.  

Como diz uma autora de um texto conhecido. "falta é uma coisa que nos consome e que não passa, de alguém ou algo que passou e que sabemos que, talvez, nunca mais retorne".

Não era amor, nunca foi e eu acho que nunca deixei isso bem claro, foi paixão e isso até quem via de longe percebia, mas, aparentemente, só você não percebeu a tempo de viver e transformar isso.

Eu tento acreditar que se as coisas fossem 1% diferentes, mais calmas, menos ríspidas, menos agressivas, brutas ou imbecis das nossas duas partes, (no decorrer dos nossos dias), hoje esse texto seria a respeito de uma foda fenomenal, de um relacionamento iniciado ou continuo, da esperança de uma continuação. 
Mas se foi assim, talvez, era por que não fosse pra ser. 
Só pra constar em documento oficial, Eu sinto a sua falta, e você sabe que eu sinto. Mas, ao invés de dizer isso pra mim, uma vez que você também sente e eu sei. Prefere usar o silêncio, ou mandar indiretas a respeito de ter sido abandonada para que as pessoas se compadeçam de você em um ambiente qualquer, que talvez eu nunca chegue a ver.

Eu poderia demonstrar mais uma vez o quanto eu sinto a sua falta e, quanto quero que fiquemos juntos. Mas, aparentemente você não mereceria nem saber disso tudo que eu escrevi, só pensando em você.

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